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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Olho-me





Olho-me. Miro-me obcecadamente. Intrigado descubro sempre qualquer forma nova, qualquer traço mais ou menos jovial. Revejo o que vejo num a ventosidade aleatória, num turbilhão de códigos binários e ADN. Minha face, minha alma, transmitem-me o que mais ninguém consegue. Intreperto-me com os olhos. Desfasando trilhos desconhecidos, caminhos por desvendar. Sou o mais velho amigo de mim mesmo. Mas não me conheço. Mudo graças a um ritual biológico precioso. Comecei a ver-me:
            Já um rapaz com rugas. Brechas quebrando cara, essência e esperanças. Rasgando-as interruptamente, como numa tortura que só sinto ocasionalmente. Tou feio. Medievalmente tosco, feições pré – Neanderthais, traços bárbaros. Lembro-me de ser giro. Giro, simpático e meigo. Agora sou apenas mais um. Um ogre anidro de sentimentos, desprovido de amor, sendo carregado por um vulto gélido.
Sim a vida, o sofrimento inerente a vida tem essa problemática, esse poder de transformação . De transfigurar o Bom. De transformar tudo isso numa óssea e rija carapaça de arrogância e altivez. Alguém se pode orgulhar de algo que sonha mudar quotidianamente? – não. E muito menos eu. Não me orgulho de apenas eu me conhecer por inteiro. Encaro todos os dias um papel. Já tentei que a sociedade de ajustasse a mim e o fracasso conduziu-me à mais incessante peça de Teatro. Mudo de carácter consecutivamente e escondo a luz. Reservo a luminosidade da minha alma a uma fatiota ridícula que uso sem preceito justificável. Escondo-me num dos ocultos escapes do fantoche e aí vejo que sou apenas mais um mero servo de tantos outros. E existem condicionantes pré-concebidas no ser Humano que o levam a acreditar no que as pessoas, esses monstros sociáveis, nos transmitem fisicamente, aparentemente, materialmente e só seguidamente, e depois de algum tempo vêem realmente a parte mais primordial de nós. Aquilo a que chamamos de interior. Até haver um iluminado, vivemos, vivo ostentando os insclarecidos ornamentos de um heterónimo que usamos por mera conviniência. Ninguém é excepção.  Penso até que sou o mais guarnecido jovem. Tenho inúmeras figuras dramáticas que convoco, mediante o acontecimento, a palco. Considero-me mais ignóbil sinal de uma torpe mudança na sociedade. Sou alto, assim como tantos outros, mas acendo vir a ser , a chegar, mais longe do que a minha arte e capacidade conseguem alcançar. Ouvi uma vez um velho que já só espelha a sua ressequida sabedoria quando o seu último neurónio, que navega, sem rumo bate contra as paredes cranianas. Ele disse-me que em toda a sua vida comparara o homem ao barro. Disse que somos moldados por muitos factores exóticos mas que só um é de responsabilidade nossa. Tento ser moldado por alguém. Um artista proeminente que me releve, mas nunca serei capaz de me revelar a alguém. Ninguém merece conhecer os calabouços dos meus já tíssicos passados. A vida é efemera. Tudo passa rapidamente, até mesmo o amor, o maior amor das nossas vidas, o mais portentoso relacionamento amistoso, até mesmo a morte é demasiado rápida para o  tempo que esperamos por ela. E eu não quero ser mais um veloz indigente de uma peça com um único acto. Tenho sonhos e esperanças, planos e ambições que requerem calma. Quero estender a minha rectidão e prudência a quem sentir privação das mesmas. Preservar o meu nome nas memórias alheias. Recalcar a minha história marcando-a nas linhas do inesquecimento. Pois no fim desta escalada a que chamamos vida, quando chegarmos ao cume da montanha, quero ser uma das mais bem moldadas obras de arte.

2 comentários:

  1. Se Voce tem realmente 16 anos voce escreve muito bem. Parebens. Gostaria de ver mais do seus textos

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  2. Muito Bom :)

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