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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Carta de um militar



20 de Dezembro de 1916
Querida Mãe,
                Querida mãe, estou-lhe a escrever esta carta para dizer que eu e o pai ainda estamos vivos.
                Nem imagina como gostava de estar em casa consigo. Quem me dera voltar à minha velha vida, nao muito boa, mas muito melhor que o sofrimento que passamos diariamente aqui.
                Estou-lhe a escrever a partir de uma das trincheiras, arraneji um lugar menos molhado onde pudesse escrever minhas magoas e saudades.
                Já à três meses que não eramos atacados, três meses de puro tèdio, omtem fomos surpreendidos com gás venenoso. Não tinhamos máscaras, por isso tivemos de embeber panos em urina.
                Esta poderá ser a ultima vez que lhe escrevo.
                Não se preocupe com o pai. Ele está no bunker. Lá está mais quente e não há problemas de morrer porque é construído de betão e aço.
                Ando todo molhado. Nunca mudamos de roupa. No outro dia apareceram piolhos. As nossas  roupas foram para as caldeiras para lavar e ver se exterminavam os parasitas, mas ainda haviam ovos nas fardas que não morreram. Por isso, tivemos de queima-los com gigarros.
                A comida é pouca. Só comemos sopa e de legumes desidratados. De vez em quando guarnecidos com carne de cavalo que nos mesmos tiramos destes depois de mortos.

Estou a viver em valas de dois metros. Todas elameadas e muitos dos nossos homens morrem afogados na porcaria enquanto tiram os unícos minutos que podem para dormir.
                Vejo tanta gente a morrer na terra de ninguém, é quase impossível passar por lá: arame farpado, buracos feitos pelas bombas e granadas... São corpos putrefactos e amontoados... Ratos e se alguém conseguir passar por esta podridão então será varrido pelas metralhadoras.
                Estou cansado de tantas cenas horrorosas que me ferem física e psicologicamente. Nós não somos seres humanos, apenas maquínas destruidores e assasinas.
                Já estou tão mal que já nem sinto compaixão por ninguém neste campo de batalha. Isto está a tornar-me num monstro.
Despeço-me, desejando-lhe um Bom Natal.
Para a semana, se tiver vagar, torno-lhe a escrever.

                                                                             
                                                                                              Dos homens que mais a amam;
                                                                                              EM e pai.

P.S: Diga à Maria que a amo e que tenciono voltar em breve para juntos educarmos o nosso filho.

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